À conversa com A Jigsaw

Tivemos uma breve conversa com Jorri, o Baixista, percursionista e teclista dos A Jigsaw, banda de Coimbra que continua a acreditar que vale a pena fazer música “à séria” com qualidade, ignorando humildemente as “obrigações orelhudas” que as playlists das rádios exigem.

Quase 15 anos depois de A Jigsaw, este é o disco que representa bem a vossa maturidade?

Este foi o disco que decidimos fazer à coisa de 3 anos, mas claro marca um crescimento enquanto banda. Em todos os álbuns sentimos que amadurecemos. A partir do Like To Wolf, temos tocado muitas vezes. São muitos concertos em Portugal e fora de Portugal, logo temos passado muito tempo da nossa a vida a ser músicos, a tocar todos os dias, a conhecer muitos países diferentes. Em 2010 demos 200 concertos em 12 países diferentes. Se estivéssemos limitados a Portugal, eram preciso 3 ou 4 anos para conseguir este número, portanto é normal que se amadureça enquanto músico e enquanto pessoas. Por exemplo, ouve uma altura que 2 meses tocamos 54 ou 55 vezes, o que é o mesmo que dizer que estivemos quase todos os dias a tocar. Infelizmente em Portugal isso é completamente impossível. Ainda há pouco tempo em conversa com o Nuno Calado disse-lhe se nós gostamos tanto de fazer uma coisa, temos de a fazer todos os dias e é assim que crescemos enquanto profissionais, seja em que área for, muito mais quando gostamos do que fazemos.

Isto tudo para te dizer, claro que todos os álbuns são mais maduros, claro que todos os álbuns são mais pensados, e sendo os nossos álbuns muito conceptuais, esse conceito é mais profundo, e em termos de arranjos e composição, claro que temos sempre a influência de todos os anos que já passaram.

Sentimos que o álbum tem uma vertente mais feminina. Sentiram necessidade de trazer para este disco este tipo de sensibilidade?

É engraçado que já nos têm frisado isso, mas sim, os nossos álbuns têm sempre um lado feminino, seja duma forma directa ou indirecta. Nos últimos discos temos tido sempre a participação de uma vocalista convidada. Desta vez foi a Carla Torgerson dos The Walkabouts, a Maria Côrte e a Susana. O nosso lado feminino é este. Até à dois anos, a Susana Ribeiro fazia parte dos A Jigsaw, éramos um trio e tínhamos sempre a presença de um elemento feminino no grupo, e isto torna-se engraçado porque no primeiro disco sem nenhum elemento feminino na parte da composição tenha-se falado tanto nesse lado.

Se calhar a Susana é a grande culpada disto tudo, porque os 6 anos em que ela fez parte de A Jigsaw, deu esse cunho feminino ao som de A Jigsaw. Obviamente influenciou-nos enquanto compositores. São muitos anos a partilhar salas de ensaio, são muitos anos a partilhar histórias e a ouvi-la, e obviamente este álbum, mesmo não tendo a presença de um elemento feminino na composição, a Susana modificou-nos enquanto compositores, dando-nos essa sensibilidade.

Onde é que os A Jigsaw tentam encontrar uma fonte de inspiração?

Nós não procuramos inspiração em nenhum nome, mas claro que há nomes que nos influenciam enquanto músicos. Estamos a falar de músicos que conhecemos à muito tempo, que conhecemos profundamente a arte que eles fazem. Se calhar quando pegamos num instrumento, o nosso som vai ser influenciado por esse conhecimento, o que acaba por ser uma mescla de tudo o que ouvimos, das pessoas que nos rodeiam, de tudo o que conhecemos. Basicamente é o resultado de quem somos e tudo o que nos forma.

O álbum anterior era um pouco isso, era sobre a construção da identidade. Claro que nomes como Nick Cave, Tom Waits, Leonard Cohen, Johnny Cash e muitos outros acabam por nos moldar enquanto compositores. Mas não é só a música, os bons filmes e grandes realizadores influenciam-nos tremendamente, a fotografia, as cidade a arquitectura… mas não procuramos beber inspiração de nada em concreto. Por exemplo, o Robert Smith ouve sempre a mesma cassete antes de começar a compor novas músicas, porque estão lá grandes músicas, verdadeiros monstros sagrados, e ele ouve sempre essa cassete para se inspirar, é quase uma exortação à inspiração. Eu pessoalmente deixo de ouvir música, essencialmente quando entramos na parte de fechar as músicas e começar a fechar ideias, mas cada criador lida com isso da forma que achar melhor. Dificilmente oiço música durante esse tempo, para que fique concentrado no que estamos a fazer. É normal que quando estamos presos num ou noutro ponto, eu não quero encontrar uma solução numa ou noutra música que ouvi no dia anterior.

Há pouco disseste que têm passado muito tempo fora do país. Acham que a vossa música tem mercado em Portugal?

Mercado em Portugal há. O mercado é pequeno? Sim, é verdade. Quando falamos naqueles nomes que referi na questão anterior, estamos a falar em nichos, nada de mainstreams, mas um nicho nos EUA não tem comparação com um nicho em Portugal. Nós somos uma banda de nichos e temos a desvantagem de estar num país periférico, é difícil conseguir atingir um número de pessoas que um artista de nichos atinge nos EUA ou na Inglaterra, França…

Sendo Portugal um país pequeno, é normal que essas dificuldades sejam maiores, pois não temos o mesmo número de rádios ou publicações escritas que outros países têm.

Tocando nesse ponto, acreditam que poderiam ter uma melhor promoção por parte da imprensa nacional? Por exemplo, é muito raro ouvir A Jigsaw em rádios como a Antena 3 ou a Vodafone FM, que seriam os meios mais “fáceis” para essa promoção.

Sim… É verdade. Não há muitos meios de comunicação, de divulgação de música mais alternativa, de autor, embora ache que a nossa música não é assim tão alternativa quanto isso, que não seja radiofónica. Mas isso é uma decisão de quem está à frente e que escolhe as playlists. Mas não te sei explicar… por exemplo, a nossa música com mais airplay na rádio foi do primeiro disco, a Lion’s Eyes Louder, uma música mais comercial, mas acredito que tenha faltado associação dessa música aos A Jigsaw. Quando tocávamos a Red Ponny muita gente nos dizia que não sabia que a música era nossa, pensando que era uma música duma banda estrangeira. Este tipo de coisas acontecem-nos frequentemente. As coisas podiam ficar mais simplificadas com a televisão, mas em Portugal a televisão não dá espaço a bandas como nós e muitos. No caso das rádios, nestes últimos anos, têm saído imensas bandas com muita qualidade, e se calhar antigamente não era muito fácil fazer muitas horas de música feita em Portugal com a qualidade que se faz hoje. O que não falta aí são bandas com muita qualidade, onde se vai buscar uns singles muito radiofónicos mas com critério. Com isto tudo, o nosso espaço fica um pouco tapado, pois o nosso som não é tão comercial.

Respondendo directamente à tua pergunta, claro que podíamos ser muito mais promovidos. Mas isso está ligado ao critério editorial dos meios de comunicação. Hoje em dia tu passas do anonimato às luzes da ribalta se por exemplo, apareceres no telejornal.

Não acreditas que isso também está relacionado com o ter as pessoas certas nos lugares certos? Por exemplo, falando de bandas/músicos nacionais que o noizze aprecia bastante e ajuda na divulgação sempre que pode, como PAUS, Linda Martini, Tigerman, Noiserv. Não achas que pode haver aqui playmakers importantes que estão nos lugares certos, no momento exacto?

Sim, acreditamos que sim. Curiosamente falaste de bandas que estão todas em Lisboa. O próprio Paulo Furtado conseguiu uma maior projecção quando saiu de Coimbra e instalou-se em Lisboa. Mas não vou estar aqui a lamentar essa situação. Como disso claro que ajuda estar no sitio certo. Claro que, quando crias relações com editoras, produtores, com o meio em geral, que não passam só pela gravação e produção do disco, as coisas ficam mais facilitadas.

Mas não será exclusivamente isso. Nós em Espanha fizemos primeiro a Rádio Nacional do que em Portugal… e não temos ninguém em Espanha a trabalhar por nós. Também fizemos a Televisão espanhola antes de actuar em qualquer televisão nacional. Na última vez que fomos a Espanha fizemos os concertos da Rádio 3, um programa da TVE que dá meia hora de concerto com emissão televisiva para a toda a Espanha, um palco importante onde poucos artistas portugueses actuaram. Como é que nos descobriram? Como é que o The Guardian nos deu destaque? Como é que o Les Inrockuptibles nos mete na lista de bandas a seguir?

Isto tudo está ligado pela procura de música de qualidade por parte dos editores de rádios ou jornais. Se passamos menos em Portugal em Rádios ou TV’s que sejam o nosso meio mais indicado, isso vai pela opção desses editores. Não quero dizer que não haja qualidade, claro que há muita qualidade no país, estamos todos a concorrer por minutos de antena. Mas fico mais desiludido quando vejo que não é pelo mérito que as pessoas atingem esses meios.

Na parte da imprensa, acho que os jornalistas têm um papel importante nessa divulgação. Eles são uma parte muito importante nesse caminho. São os jornalistas que têm o dever de mostrar aos ouvistes e leitores o que é que se anda a fazer. Como já disse há muitos projectos de música menos comercial e de grande qualidade que chega às pessoas. Nesses caso a imprensa teve um papel importante na promoção. Mas claro que temos pouca imprensa em Portugal que divulgue a cultura que por cá se faz. Eu não tenho problema nenhum em dizer que a revista mais importante para nós músicos, a Blitz, devia ser o meio mais importante na divulgação de novos criadores, no entanto isso não acontece, não espelha nada do que se passa na música em Portugal.

Para concluir, vamos fazer uma pequena provocação… Como é que é ser de Coimbra e acabar um concerto sem partir meio palco?

[Risos] Por acaso agora andamos com uma ajuda importante nesses sentido, pois trazendo o Victor Torpedo, sem qualquer dúvida uma das maiores referências da música em Portugal, para mim talvez seja a Referência da música em Portugal, e é certamente para que conhece o percurso da música nacional… é um Tédio Boy, é um Parkinson, é um guitarrista fabuloso, um criativo tremendo, e trazendo-o é para ajudar nisso, porque eu e o João não o vamos fazer, apesar de a minha melódica andar a cair muito ultimamente. Mas nós não espelhamos essa imagem do Rock de Coimbra, mas agora tentamos reunir algumas pessoas mais ligadas a essa história da música de Coimbra e do Rock N’ Roll, e claro o Victor Torpedo está fundido com a história da música em Coimbra. O Pedro Serra que é o contrabaixista também pode ajudar nisso, porque está ligado a imensas bandas rockabilly de Coimbra, a Tracy também vai lá parar, e os três fazem parte dos Tiguana Bibles. Mas não, isso nunca vai acontecer [risos] No limite partem-se umas cordas… Mas o trazer esta gente toda é também reviver esse espirito de Coimbra, essa rebeldia.

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