David Santos em modo Noiserv

Talento em versão concentrada

Falamos com David Santos, voz e alma de Noiserv, que em 30 minutos de canções transformou o seu novo álbum Almost Visible Orchestra num dos melhores que ouvimos este ano.

Como está a ser a reacção do público aos primeiros concertos do novo álbum? O feedback é bom?

Eu acho que sim. A todos os niveis o feedback tem sido bom. Quer das músicas por si só, quer depois nos concertos também. Estou satisfeito. Acho que depois de um período muito longo em que a pessoa não sabe bem o que vai acontecer é bom quando depois as coisas correm todas bem.

O disco está exactamente o que tu querias ou agora que está cá fora mudarias alguma coisa, farias alguma coisa diferente?

Eu acho que este, pela primeira vez, é o disco que eu fiz e que em todos os aspectos acho que não conseguia fazer melhor. Isso aconteceu porque eu estive muito tempo para o fazer, houve muitas coisas que mudei. Mudei tudo até não conseguir mudar mais. E agora dá-me nessa noção de satisfação total.

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Os títulos das canções são, quase só por si, mensagens. Porque é que optaste por ser assim?

A ideia era transmitir um bocadinho da música mesmo antes de as pessoas a ouvirem. Os títulos têm quase uma relação directa com o estado de espírito que eu tinha quando fiz a música e em alguns casos, mesmo a ver em concreto com a história que está a acontecer na música. Acho que, hoje em dia, há muito a ideia de que as bandas se preocupam muito com os títulos dos discos e não se preocupam com os títulos das músicas. É sempre a palavra que tu cantas no refrão, ou são as três palavras do refrão, e eu achei, porque é que há-de haver esse sentimento que parece que o título não é uma coisa importante? E então, baseado nessa ideia, pensei que talvez os titulos tenham de ser mais do que as palavras que eu canto. Porque não hão-de ser uma mini história do que tem a letra? Então comecei por aí e depois fiz os títulos todos enormes.

As capas dos álbuns, brincas sempre um bocadinho com elas. É uma forma de também ajudar a vender o álbum ou é mesmo vontade de fazer algo original?

Acima de tudo é uma ideia que eu acho que, tal como os títulos das músicas, faz sentido que as pessoas olhem para o disco e quando o vêm , por ser alguma coisa diferente, hão-de sentir alguma coisa. Eu acredito que o que elas sentem com as diferentes capas que eu tenho tido, é um bocadinho aquilo que eu passei quando estava a fazer o disco. O primeiro era um disco quase de bolso, as músicas foram sendo feitas cada música de cada vez. Quando fiz a primeira música não tinha mais nenhuma música, então é quase como se fosse um livrinho de bolso que tu vais escrevendo, tipo um diário em que vais completando dia-a-dia e depois vais juntando os dias todos. Este disco foi diferente. Tinha já os bocadinhos, tipo 20 segundos de cada música antes de pegar em cada uma delas. Aquilo não era mais do que um puzzle em que eu tinha as peças todas soltas. Tenho-me apercebido com o passar do tempo, realmente quando a capa é diferente, as pessoas podem ter mais interesse em ter um disco diferente mas nunca é com esse intuito. Acima de tudo é com a ideia de que as músicas ganhem alguma coisa com isso, que as pessoas que conheçam a capa tenham mais do que as pessoas que não têm a capa. O puzzle, quando tu tens que abrir, tirar as peças para tirar o disco, tens de pôr as peças para fechar o disco, tudo isso foi um bocadinho o que eu tive de fazer. E acho que, mesmo inconscientemente, as pessoas passam um bocadinho pelo que eu passei. E isso acho que é giro.

E o que é que gostavas que as pessoas pensassem e sentissem depois de ouvir o disco?

Acho que gostava que elas sentissem que gostaram do que ouviram ou que sintam que aquelas músicas lhe transmitem algumas emoções que elas sentem e que depois podem ser úteis para a sua vida do dia-a-dia. Não sei. Tenho a ideia de que acho que faço sempre as músicas para as outras pessoas porque para mim tenho as músicas que os outros fazem e que eu gosto. Se as minhas músicas conseguirem ser parte integrante da vida das pessoas que as ouvem acho que é aí que fico satisfeito.

Desde 2005, quando começaste, até aqui, o que achas que mudou?

Eu acho que mudou muita coisa. Acima de tudo em 2005 quando comecei não sabia muito bem quais eram as minhas capacidades e aquilo que conseguia fazer. Acho que eu próprio me tenho vindo a descobrir à medida que vou fazendo mais discos, mais colaborações. A grande diferença é essa. Como não tenho estado parado, acho que vou sempre crescendo muito. Para mim é complicado analisar porque foi tudo um processo muito devagarinho devagarinho, devagarinho mas quando olho para trás mudou, de facto, muita coisa.

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Estavas a contar com o sucesso e reconhecimento que tens tido?

Eu sempre fiz as coisas da melhor maneira que eu conseguia fazer. E isso, inconscientemente, quando fazes o melhor que consegues é querendo que depois aconteça o melhor possível. Nunca pus as expectativas muito altas. Acho que agora, principalmente neste disco, está a haver uma cena muito maior do que havia antes.

As expectativas são cada vez maiores…

Este disco já foi complicado pessoalmente pela ideia de que não queria desiludir as pessoas que tinham gostado do anterior. Acho que isso não aconteceu e que consegui que mais pessoas que não conheciam ficassem a gostar. Quando fizer o próximo disco vai ser ainda pior. Isso é algo que tenho de aceitar Se um dia deixar de ter essa pressão é porque já não tenho nada para fazer. Acho que o medo de desagradar as pessoas é o que faz que as coisas depois possam ser boas. Eu tenho de sentir que não consigo fazer melhor do que o que está ali.

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E nunca te sentes sozinho em palco? Ou os teus instrumentos são suficientes para te fazer companhia?

Hoje em dia já são um bocado suficientes. Até é estranho, às vezes quando tenho de tocar numa radio ou na televisão e não tenho os instrumentos todos parece que toco pior. É uma coisa um bocado estranha de explicar.

O que te levou a convidar tanta gente para participar numa só música (“I was trying to sleep when everyone woke up” com Rita RedShoes, Luisa Sobral, Esperi, Afonso Cabral & Salvador Menezes, Francisca Cortesão e Luis Nunes)?

Aquela música em especial falava da importância das pessoas e da importância do mundo com e sem pessoas, da minha vida com e sem pessoas e pareceu-me que era um bocado estranho ter uma música em que a ideia era reforçar essa importância das pessoas e depois fazê-lo sozinho. Então pensei, isto tem de ter outras pessoas a cantar.

Mas o que faz sentido para ti é tocar sozinho?

Já passou muito tempo, percebes? Isto já tem uma noção que eu não consigo explicar, já é assim. É como tu nasceres de cabelo preto e depois te perguntarem se não te faz confusão não seres loiro. Isso não é uma questão, é mesmo assim. Inicialmente surgiu da necessidade de ter uma banda sozinho mas depois também se torna viciante. Teres uma coisa que dominas totalmente. Em que consegues estar quase sempre em xeque contra ti próprio. Depois é tipo um vício quando sentes que aquilo que fizeste até agrada às pessoas. Quanto mais fizeres mais forte é a probabilidade de as pessoas gostarem daquilo que tu gostaste de fazer. Não é que seja um vício, uma cena egocêntrica, nada disso. É um bolo que não dá para desmanchar.

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