Mitó fala-nos d’A Naifa

Maria Antónia Mendes, voz carismática d’A Naifa, falou-nos das canções, do percurso, dos amigos e do inconformismo político e social que transparece na sua música.

Dentro do inconformismo político e social patente em todos os discos d’A Naifa há alguma razão especial para as canções do cancioneiro revolucionário escolhidas serem estas?

Não! Não nenhuma razão especial. Estas músicas não foram escolhidas para o disco. Provavelmente se fossem escolhidas teríamos ido muito mais além no carácter panfletário das canções. Na primeira tournée, por uma questão altamente prática, porque um disco não enche o tempo de um concerto, nós tínhamos de arranjar outras músicas, e como não as compusemos nós, porque A Naifa tem uma forma muito complexa de compor, começamos a fazer versões de músicas que nós gostamos para preencher os concertos. Na primeira digressão tínhamos duas ou três, na segunda digressão arranjamos a Desfolhada, e como nós gostamos de fazer versões, em Dezembro de 2006 fizemos uma digressão que se chamava precisamente “As Canções d’A Naifa”, e já pouca gente deve de estar recordada disto, mas que era constituída por metade de músicas nossas e metade versões, e foi aí que nós arranjamos a maioria das versões que estão neste disco. A seguir a isto continuamos, à medida que íamos para a estrada preparávamos uma versão. E com o passar dos anos, começamos a ter muitas pessoas a dizer-nos que gostam muito desta ou daquela versão e a desafiar-nos para gravar um disco de canções. No ano passado o Canal Q convidou-nos para gravar o hino do canal, que é a Inquietação do José Mário Branco, e fomos para estúdio gravar para o Canal Q. Mas uma vez em estúdio apeteceu-nos “porque não gravar um disco de versões, já temos versões que dá para fazer um disco”, e então começamos a fazer a lista das versões que tínhamos. Portanto, este disco não tem versões de agora, e se tivessem sido escolhidas neste momento, certamente teriam um carácter mais azedo a nível político, mas é uma colecção de versões que nós fizemos ao longo destes 10 anos, que demos ao público e que o público pediu muito que gravássemos.

Esta perspectiva mais “erudita” das canções de intervenção, menos didacta e mais exigente, é uma opção consciente de sofisticação da missão denunciatória da música portuguesa?
(Ausência de José Afonso ou de qualquer das senhas de Abril… Fuga ao óbvio talvez…)

Sim… Não temos nenhuma do Zeca Afonso, mas poderíamos ter tido. Todos nós e o falecido João Aguardela somos fãs do Zeca Afonso, aliás, viemos para cá a ouvir Zeca Afonso. Mas falharam outros, por exemplo o Sérgio Godinho. Mas as versões não foram escolhidas para achincalhar o actual cenário político. Já na altura em que as arranjamos não quisemos ir para o óbvio. Eu lembro-me que tivemos várias músicas em cima da mesa mas que não as usamos porque eram óbvias demais, mas felizmente, o reportório do Zeca Afonso já foi bastante remexido com versões, e sublinho, felizmente. O José Mário Branco ainda não teve o reportório tão mexido, mas agora está aí a ser preparada uma homenagem, e ainda bem que em vida. Mas sim, evitamos o óbvio, o que não invalida o nosso gosto que temos nesses músicos mais intervencionistas.

A música portuguesa esqueceu esta função de denunciar o estado das coisas por preguiça ou simplesmente “vendeu-se” à gratidão de ter trabalho pago pelos dinheiros públicos?
(A Naifa passa ao lado dos convites mais convencionais para as festinhas autárquicas…

Depende… Nós não vamos às “festinhas” porque lá não nos querem. Uma terra com festas populares em Agosto não vai contratar A Naifa. A verdade é que já aceitamos umas coisas, mas da banda, eu sou a que mais se desmarca dessas coisas, mas nós já temos feito algumas coisas nesse campo. Também não temos um espectáculo que se molde para concertos ao ar livre, e já o fizemos, há cerca de dois anos actuamos nas Noites do Ritual no Porto, mas não tem nada de similar com festas populares. Nessas festas não querem ouvir a nossa música, se bem que com este disco já temos temas mais orelhudos, a Tourada ou a Desfolhada, são temas que entram bem, mas até então não. Nós temos músicas com letras como “Um dia tão bonito, Eu não fornico”, isto não é música para tocar nas festas das juntas.

No livro High Fidelity de Nick Hornby o herói, dono de uma loja de discos, arruma a sua vasta colecção pessoal de vinis de forma biográfica ao que o interlocutor responde com espanto. Para A Naifa, gravar esta espécie de best of biográfico é uma forma privilegiada de homenagear as inspirações que nortearam a formação e os amigos que acompanharam o crescimento da banda?

Sim. Essa é a frase que até hoje melhor resume este disco. A seguir quero que me dês isso. Normalmente perguntam-me o porquê deste disco e eu quero ler isso (risos). Este é um resumo dos 10 anos d’A Naifa, e está aqui uma homenagem às pessoas que nos apoiaram, que estiveram connosco, também aos que não estando connosco se identificam com estas canções, e ao próprio João Aguardela, porque estão poucas versões neste disco, que não tenha sido arranjada por ele. A Inquietação foi arranjada no ano passado, portanto é também uma homenagem ao João, tal como todas as músicas que fizemos depois da morte Dele.

O facto de não terem uma editora dificultou o processo de licenciamento?

Não. Isso não. Nós não temos uma editora mas temos uma promotora. Mas isso das editoras é um grande engano. Os nossos promotores fazem o mesmo que as editoras fazem, promovem os nossos concertos, estão encarregues de avisar a comunicação social, marcar entrevistas.

O disco está devidamente licenciado, e os nossos promotores fizeram-no com alguma celeridade. Mas talvez na distribuição do disco falhe qualquer coisa.

Sentem que faz falta um veículo “oficial” de promoção de um novo disco?

Sim, mas neste disco até foi o que sentimos menos isso. Já temos 10 anos e encontramos mais portas abertas, rádios, televisão, mas A Naifa nada contra a corrente. As duas primeiras digressões, 2004 e 2006, foi exactamente isso, nadar contra a corrente. Fechavam-nos as portas, não passávamos em rádio nenhuma, e nós fazíamos tudo. Felizmente, com muita persistência nossa a coisa até foi chegando a bom porto. A Antena 1 apoiou a promoção, a TSF teve dois spots para os concertos do Porto e Lisboa, a RTP já nos entrevistou quando a digressão começou. Mas no início parecia que estavam todos a marimbar-se para nós.

Mas a Naifa sofre um pouco da sua identidade artística. Não tem temas para passar nas rádios mais jovens mas também não tem temas para passar nas rádios viradas para um target mais convencional, ficam ali no limbo.

Sim. Mas sempre foi assim. A Naifa nunca teve discos com temas muito orelhudos para passar na Antena 3 nem temas menos escandalosos e mais levezinhos para passar na Antena 1. Neste disco as coisas já não são assim. Temos a Tourada que passa na Antena 1, tens o Bolero que passa com frequência na Antena 3.

Só com nove canções, dispersas nos temas e no espaço temporal, qual é a, se há uma, explicação para o alinhamento do disco?
(Se o alinhamento não é cronologicamente coerente qual a razão para a distribuição das canções?)

Não há. Quem fez o alinhamento foi o Luís, e a ordem segue uma lógica de ver o que encaixa melhor, uma coisa encadeada no som. Não há uma história. Normalmente os nossos discos são alinhados assim, tentando criar uma harmonia sonora.

Houve alguma canção excluída que gostassem que estivesse no disco?

Houve. Por exemplo a Cerimónias dos GNR. E foi o Luís que se bateu mais por isso porque já tínhamos a Sentidos Pêsames e não devíamos ter mais do que um tema de cada artista. No nosso terceiro disco, as músicas todas são assinadas pelo João Aguardela sob o pseudónimo do nome da sua avó, e houve um tema que não ficou nesse disco, e eu achava que esse tema deveria entrar, porque nós chegamos a tocar ao vivo, e eu acho que faria sentido incluir esse tema, mas acabou por não ficar.

Com a inclusão da canção “Imenso” de Paulo Bragança, estará aberta a porta a uma colaboração no futuro?

Não. Eu acho que ficou fechada a colaboração com o Paulo no concerto do castelo de São Jorge, até porque o Paulo está a fazer coisa não coincidentes com o que estamos a fazer, mas foi bom

E do concerto único no Castelo de São Jorge há alguma gravação dessa actuação ou alguma intenção de gravar essas canções?
(Há uns tempos o Paulo Bragança regressou depois de imenso tempo sem ninguém saber o que era feito dele mas entretanto desapareceu de novo)

Gravamos, e por acaso essa gravação está a ser usada para promotores internacionais, para mostrar o que é o concerto d’A Naifa, mas não pensamos editar nem vídeo nem áudio desse concerto.

Este disco é como estabelecer um planalto onde repousar das atribulações dos últimos dez anos ou uma forma de inspirar fundo antes da incerteza das novas subidas aos céus?

É mais uma incerteza das novas subidas aos céus. Este disco é o fecho de um ciclo. Nós já encerramos um ciclo quando o João faleceu, e este disco marca outro fim.

Agora há uma grande incerteza em relação ao que vai acontecer a seguir. Não temos a certeza que venha aí um novo fôlego. Vamos andando e vamos vendo…

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