PLACEBO. Nome tão adequado

De deuses do glam-rock a adeptos de uma pop-mais-ou-menos-alternativa, os Placebo atravessaram várias fases. A cada álbum, ganharam e perderam fãs, trocando pouco a pouco as legiões convictas que teimavam acreditar que o baton e as unhas negras não eram essenciais, por outras mais voláteis e indiferenciadas. A reacção às novas produções da banda sediada em Inglaterra circula, assim, entre dois polos: as velhas-guardas encaram como uma ofensa tudo o que sucedeu a Without You I’m Nothing, enquanto os novos apreciadores simplesmente desconhecem a maior parte da produção pré-Sleeping With Ghosts.

No seu homónimo de estreia (1996), temas como Come Home e Nancy Boy valeram-lhes designações como “a versão glam dos Nirvana”, ideia que fizeram valer através da forma deliberadamente provocatória como se apresentavam e de uma atitude que combinava bem com o seu som e as suas letras – ‘Harder, faster, forever after’, ouve-se em Bionic.

Without You I’m Nothing (1998), o sucessor, mantinha a irreverência num tom algo mais negro e melancólico, sendo um álbum ainda bastante consensual que, apesar da mudança de baterista, não fugia demasiado àquilo que os caracterizava e os havia tornado famosos.

A coisa só começa a mudar com Black Market Music (2000), trabalho em que decidem explorar outros campos, introduzindo momentos manifestamente electrónicos e, até, uma participação hip-hop. Apesar disso, conseguiram manter um certo grau de agressividade e descaramento, tão querido aos seus seguidores, que se e lhes permitiram, dessa forma, alguns desvios ao estilo alternativo que defendiam.

É chegada então a vez de Sleeping With Ghosts (2003), o álbum de todas as mudanças. À electrónica adicionam-se elementos pop, no momento mais adolescente da banda até então, e também aquele que lhes valeu o seu maior reconhecimento e passagem oficial ao starsystem. Para muitos fãs mais antigos, porém, foi a gota de água: Something Rotten e Protect Me From What I Want apontam vestígios da estranheza que havia sido a sua, mas o carácter mais fácil e eminentemente mais direccionado a massas de temas como Bitter End e This Picture tornou-se, para os mais fundamentalistas, inaceitável.

Os mais tolerantes, por seu lado, conseguiram dar-lhes o benefício da dúvida, e manter-se por perto, a ver o que acontecia. E assim surge Meds (2006). Já um pouco adultos demais para o show-off dos seus primórdios, tomam a decisão de, intencionalmente, mudar de rumo: ‘It’s a form of catharsis for us – to kill what you’re most famous for’, dizem-nos no documentário que acompanha a edição especial do álbum, e que se intitula precisamente The Death of Nancy Boy. Atitude louvável numa banda que prepara o seu quinto trabalho, essa tentativa de não cair em velhos hábitos traduziu-se num álbum novamente mais negro, assumidamente sem a angústia adolescente de tempos antigos, mas com profundidade suficiente para fazer de Meds o detentor de alguma esperança nos Placebo.

Lá que romperam com o passado, ninguém contesta; mas a direcção que pareciam querer tomar não se verificou no Battle For The Sun (2009) que lhe sucedeu. Foram, aliás, na direcção oposta: após um período que consideraram demasiado negro e com uma nova substituição de baterista, a banda opta por um registo muito optimista e colorido, que pretendia, imagine-se, pôr fim ao sentimento de que “Placebo” se referia mais a uma marca do que a uma banda. Isto diz-nos Brian Molko numa entrevista do making off do álbum. Pareceram então tentar redimir-se do seu passado polémico, convidando os ouvintes a ver a luz. ‘Cast your mind back to the days when I’d pretend I was ok, I had so very much to say about my crazy living. Now that I’ve stared into the void, so many people I’ve annoyed, I have to find a middle way, a better way of giving’, é-nos revelado em Bright Lights. O que não deixa de ser irónico.

Desde então, à parte de um registo ao vivo de 2011, produziram o EP B3 (2012), que se apresenta muito morninho, nem carne nem peixe. A sonoridade aparenta querer ser novamente mais rock, retomar alguma irreverência, mas sem grande eficácia. Não é suficientemente pop para consolidar aquela nova e legítima direcção, nem suficientemente interessante para cativar os antigos fãs, já a muitas milhas de distância da sua antiga banda de eleição. I.K.W.Y.L., um dos temas presentes, significa ‘I know where you live’, frase que remete para uma agressividade potencialmente estimulante, mas que não se verifica, deixando-nos um som que já nada tem de novo, e letras que pouco acrescentam.

Do futuro Loud Like Love, a sair a 16 de Setembro deste ano, conhece-se já Too Many Friends, tema muito pouco memorável de crítica às redes sociais. É verdade, é. Aparentemente os problemas existenciais de Molko até se mantêm, mas agora a culpa é das aplicações de telemóvel (‘The applications are to blame for all my sorrow and my pain’ … ‘My computer thinks I’m gay. What’s the difference anyway, when all that people do all day is stare into a phone?’)
Se isto não reconquistar as velhas-guardas, não sei o que o fará.

Posto isto, espera-se que a banda esteja pelo menos a reconhecer a sua já conhecida vertente teen e a deixar, de uma vez por todas, de se ver a si própria como alternativa, coisa que dificilmente poderia voltar a ser.
Neste momento, por si mesma, é uma banda que não aquece nem arrefece, como um bom placebo deve fazer. E a verdade é que, logo que o assumam, não há mal nenhum nisso.

Ficamos então à espera. Com pouco entusiasmo, é certo, mas não sem uma grande – e algo sádica – dose de curiosidade.

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